A origem é médica, não psicológica. De natura hominis, do Corpus Hipocrático, por volta de 400 a.C. e provavelmente escrito por Pólibo de Cós, sustenta que o corpo contém sangue, fleuma, bile amarela e bile negra, e que a saúde é o equilíbrio entre eles. Ali ninguém é melancólico. Alguém tem, num certo momento e por causa de uma certa estação, bile negra em excesso — e depois não tem mais. Tipologia de caráter é uma leitura posterior, feita por cima de um texto sobre fisiologia.
Galeno, por volta de 170 d.C., é quem transforma aquilo em doutrina das misturas. E é aqui que a lenda popular desaba: as misturas de Galeno são nove, não quatro. Uma bem temperada, quatro simples e quatro compostas, ao longo dos eixos quente/frio e seco/úmido. Não existe em Galeno a tabela de quatro tipos com um dominante e um secundário que circula hoje em cartazes de treinamento corporativo. Ela foi montada muito depois, por outras pessoas, com outros objetivos.
O prestígio da palavra “melancólico” também tem data e autores. Klibansky, Panofsky e Saxl reconstruíram em 1964 como a melancolia migrou de doença da bile negra para insígnia do gênio — do problema aristotélico sobre por que os homens excepcionais são melancólicos, passando por Ficino, até a Melencolia I de Dürer. Vale registrar isso enquanto você lê as fichas abaixo: se o rótulo “melancólico” lhe parece um elogio — profundidade, seriedade, dom —, o que você está sentindo é o efeito de uma reabilitação literária renascentista, não o resultado de uma medição.
A medicina abandonou o mecanismo em 1858. A patologia celular de Virchow localizou a doença na célula, e a partir dali os humores deixaram de explicar qualquer coisa sobre o corpo. O que restou foi o vocabulário — quatro adjetivos úteis, órfãos da fisiologia que os justificava.
A psicologia, quando voltou ao assunto, voltou por dimensões. Wundt, já em 1874, reorganizou os quatro nomes antigos em dois eixos contínuos: a intensidade da emoção e a velocidade com que ela muda. Eysenck e Eysenck, em 1985, usaram os mesmos quatro nomes como rótulos dos quadrantes de extroversão × neuroticismo — um empréstimo mnemônico sobre dimensões medidas, e não um retorno dos humores. Em nenhum dos dois casos há tipos.
As doze combinações desta página são de 1984. Tim LaHaye, pastor batista e autor de psicologia popular cristã, publicou em Why You Act the Way You Do os pares dominante/secundário que hoje se apresentam como sabedoria antiga; Florence Littauer, no ano anterior, havia popularizado os quatro tipos no mesmo meio editorial. Isto é importante e não é uma nota de rodapé: a estrutura que organiza esta página tem quatro décadas, não vinte e quatro séculos.
Da pesquisa contemporânea sobrou algo — mas não os tipos. Kagan, em 1994, chamou seu livro de Galen’s Prophecy por cortesia histórica; o conteúdo é a observação longitudinal de crianças inibidas e desinibidas, medidas por reatividade. Rothbart, em 2011, define temperamento como diferenças precoces em reatividade e autorregulação, dimensionais e observáveis desde os primeiros meses. É esse o grão de verdade sob a expressão “colérico–fleumático”: a velocidade com que você se ativa e a velocidade com que você volta ao repouso são diferenças individuais reais, precoces e razoavelmente estáveis. Só que são duas linhas contínuas, e não quatro caixas com um encaixe secundário.